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GOVERNOS, CLIENTES E ANUNCIANTES QUESTIONAM FALTA DE TRANSPARÊNCIA DO GOOGLE; VEJA AS QUEIXAS

31/10/2012

Sede do Google em Palo Alto, Califórnia; ferramenta de busca decide o que encontramos e em que ordem
 
 
No dia 15 de outubro, internautas de diversos países que visitaram Google não foram recebidos pela interface padrão do site, mas por uma tira em quadrinhos chamada “Little Nemo in GoogleLand” (O Pequeno Nemo na Terra do Google). A ferramenta de busca estava comemorando o aniversário da primeira publicação do personagem de histórias em quadrinhos em um jornal americano, em 1905.
 
O Google chama essas surpresas coloridas em sua página de busca, fora isso espartana, de “doodles”. Na tira de quadrinhos original, o personagem Nemo experimenta suas escapadas noturnas a um local chamado “Slumberland” (terra do sono ou sonhos). A pequena mudança do Google no título parecia apropriada. Afinal, atualmente todos nós estamos vivendo na “terra do Google”.
 
Vivemos aí de modo voluntário e feliz, porque o Google é rápido, fácil e gratuito. Ele se transformou em nossa ferramenta para todos os propósitos para navegação no cotidiano. Ele seleciona o mundo para nós, realiza buscas e encontra informação. E graças ao triunfo do smartphone, o Google agora está onipresente, uma espécie de canivete suíço para o matagal de informação da era digital. O mundo é aquele que o Google nos apresenta.
 
Nove entre dez alemães à procura de informação online – um número consistente com a presença global do Google – usam atualmente a ferramenta de busca que Sergey Brin e Larry Page lançaram em 1996 sob o nome “BackRub”. Desde 1997, o bebê deles que se transformou em gigante foi batizado com o nome dado ao número 10 elevado à 100ª potência, ou gugol (“googol” em inglês) –o número 1 seguido por cem zeros.
 
A escolha do nome é uma expressão da meta da empresa de indexar o máximo de páginas de internet possível. Foi uma reivindicação inicial e aparentemente brincalhona de onipotência, uma que não parecia ameaçadora na época. E por que seria? “O Google não é uma empresa convencional. Nós não pretendemos nos tornar uma”, escreveram os fundadores no prospecto para sua oferta inicial de ações em 2004. Mas agora há crescentes dúvidas sobre se o Google é realmente tão diferente de outras empresas. Ou mesmo mais gentil.
Enganados e roubados

Algumas empresas alegam que foram excluídas da ferramenta de busca. Outras sentem que são punidas quando tomam decisões que o Google não gosta. E associações setoriais dizem que os clientes que dependem do Google são enganados e roubados.
 
A pergunta chave é: exatamente quão neutra é a empresa na forma como faz levantamento do mundo da internet?

Um bom argumento sobre o fato de o Google não diferir de outras empresas é que ele busca aplicar de forma rigorosa seu poder de mercado, às vezes em detrimento de seus clientes e usuários. A longo prazo, isso poderia afetar a empresa muito mais adversamente do que a queda no preço de suas ações, que caiu até 10% recentemente devido a lucros menores do que o esperado.

O Google se transformou em um porteiro-chave no mundo interconectado. Como a ferramenta de busca decide o que encontramos e em que ordem, ela exerce um papel chave na decisão sobre onde obtemos nossa informação e onde compramos.

Apesar de a empresa prometer transparência, ele não vive à altura desse ideal quando se trata de seus próprios assuntos. Quando o Google comenta sobre como chega aos resultados de busca, ele o faz apenas vagamente. Por exemplo, a empresa explica que a “relevância” dos resultados de busca é um fator decisivo. Em fevereiro, um lobista do Google disse a um comitê parlamentar alemão que uma busca do Google sempre procura “a melhor resposta” para o usuário.

Mas é a empresa que decide o que é relevante e qual é a melhor resposta. E isso tem consequências sérias, tanto para os usuários quanto para a economia. Atualmente, o bem-estar de uma empresa pode depender de onde ela aparece na lista de resultados de busca do Google, porque essa posição afeta diretamente as vendas.

A mensagem que o Google não mede esforços para comunicar, que os resultados de busca são neutros e também objetivos, é traída pelo fato de o modelo de negócios da empresa depender da monetização de seus resultados de busca. Especialmente quando se trata de busca de produtos e serviços, o Google é regido por interesses tangíveis, os da própria empresa.

Isso cria uma situação insalubre no mercado online, na qual o Google pode escolher seus próprios clientes. Os clientes, por sua vez, não têm escolha a não ser se aliar ao Google e gastar muito dinheiro fazendo isso, caso esperem ter sucesso online.

Isso por si só é um grande problema para muitos concorrentes, mas é reforçado pelo fato de que o Google nunca descansa: ele está constantemente ingressando em novos campos, usando seu tamanho em benefício próprio. Mas isso também aumenta o número de oponentes do Google, que acusam o gigante de dar preferência aos seus próprios produtos nos resultados de busca, como o “Google Maps”, e em buscas de produtos, caso do “Google Shopping”. Diz muito o fato de os críticos do Google agora virem de tantos setores diferentes, incluindo turismo, comércio e editorial.

Preocupações semelhantes
Até o momento, entretanto, havia relativamente poucas críticas ao Google na questão de privacidade de dados. A empresa enfrentou pressão na Alemanha quando começou a tirar fotos de casas e a colocá-las online por meio de sua função “Google Street View”. Em meados de outubro, especialistas em privacidade de dados da União Europeia disseram à empresa que suas regras mais recentes de privacidade não atendem aos padrões europeus.
 

Mas esses problemas menores não minam o sucesso da empresa, especialmente diante das multas relativamente pequenas por violação de privacidade de dados na Alemanha, cujo teto é de 300 mil euros (cerca de R$ 786 mil). Mas agora algo maior pode estar tomando forma em Bruxelas e em Washington.

O Google está sob investigação preliminar, por distorção da concorrência e manipulação de resultados de busca em benefício próprio, pelo Comissário Europeu de Concorrência desde 2010 e pela Comissão Federal de Comércio (FTC) dos Estados Unidos desde 2011. A questão central é se o Google está abusando de seu poder. A empresa poderia enfrentar o maior processo antitruste desde o julgamento contra a Microsoft no final dos anos 90.

Joaquín Almunia, o comissário antitruste europeu, disse ao presidente-executivo do Google, Eric Schmidt, em maio, que tinha “preocupações” com a empresa em quatro áreas. A FTC aparentemente tem preocupações semelhantes.

Por que o Google (não) é objetivo
O segredo de busca do Google data dos primórdios da empresa – o método PageRank, desenvolvido por Brin e Page quando eram estudantes da Universidade de Stanford. Alguns especialistas sentem que a neutralidade já estava perdida àquela altura; os programadores, afinal, tinham de tomar decisões sobre quanto peso atribuir a que fatores.

Brin e Page escolheram “popularidade do link” como uma característica de um resultado de busca. Segundo esse princípio, os sites que são linkados por muitos outros sites aparecem em um ranking mais elevado do que sites recomendados com menor frequência. Essa é uma constante no algoritmo de busca altamente secreto do Google, uma fórmula que é constantemente redesenhada e atualmente leva mais de 200 critérios em consideração, incluindo “tempo de permanência” e – em uma edição recente – “qualidade”.

Para muitos críticos, o verdadeiro lapso na questão da neutralidade teve início quando o Google, no meio da década passada, começou a oferecer novos serviços próprios, do e-mail Gmail ao Google Maps, do site de vídeos YouTube, que ele adquiriu, até a rede social Google+. O tratamento preferencial dado a esses produtos do Google também está no coração das queixas da UE e da Comissão Federal de Comércio sobre a empresa.

Shivaun Raff foi uma das primeiras pessoas a contestar legalmente a empresa com base na concorrência. Juntamente com seu marido, a cientista da computação, baseada em Londres, dirige um site de busca chamado Foundem. O site de comparação de preço é considerado uma “ferramenta de busca vertical”, que, diferente da busca geral horizontal do Google, mergulha profundamente nos sites de muitos provedores.

A empresa desapareceu repentinamente em junho de 2006, ou pelo menos assim pareceu para o casal Raff. O Foundem não mais aparecia na primeira página dos resultados de busca do Google e frequentemente só aparecia depois da 10ª página. Uma realidade brutal no mundo das compras online é que os resultados que não aparecem nas primeiras três páginas de uma pesquisa no Google são praticamente inexistentes. O número de visitantes do Foundem despencou, e as vendas caíram.

O que aconteceu? O Google tinha mudado seu algoritmo de busca. Os fundadores do Foundem apresentaram uma queixa, sem resultado. Eles dizem que ninguém estava disposto a explicar para eles o que exatamente causou o rebaixamento ou o que poderiam fazer para voltar ao topo da lista. O Foundem ainda recebia bom posicionamento em outras ferramentas de busca, como o Yahoo.
O deserto digital
O casal impetrou uma queixa junto a Joaquín Almunia, comissário antitruste europeu, em novembro de 2009. Funcionou. Apenas um mês depois, o Google aparentemente reverteu o banimento do Foundem, e a ferramenta de busca de preços prontamente voltou à primeira página dos resultados de busca.


O retorno dos Raffs do deserto digital ocorreu depois de serem banidos pelo Google por mais de 40 meses. O espírito de luta deles foi despertado. “O tempo todo o Google alegou que suas buscas eram neutras e se comportou como se não houvesse um problema”, diz Shivaun Raff. “É como se você estivesse em pé diante de uma fábrica de fogos de artifício explodindo e dissesse: ‘Pessoal, não há nada para ser visto aqui.’”

O casal documentou como o Google supostamente prejudicou sua empresa e outras ferramentas de busca verticais. O Foundem alegou que o serviço de comparação de preço “Product Search” do Google sistematicamente recebe a preferência. Apenas de 2007 a 2009, “o fluxo de clientes para os principais serviços de comparação de preços britânicos caiu 41%, enquanto o número de visitantes ao Google Product Search aumentou 125%”.

Os Raffs forneceram documentação extensa desses números, com imagens capturadas da tela e infográficos, e compilaram um documento de nove páginas resumindo seus resultados. No documento, “Como o Mecanismo de Busca Universal do Google Ameaça a Concorrência e a Inovação na Internet”, eles argumentam que a manipulação dos métodos de busca “transforma a ferramenta de busca ostensivamente neutra do Google em um canal de marketing imensamente poderoso para os outros serviços do Google”.

O Google rebate, dizendo que analisa os sites “sem consideração por competirem ou não com o Google”. Ainda segundo a empresa, seu principal critério é “o que é útil para o usuário”.

Não se meta com o Google
Um tribunal francês chegou a uma conclusão diferente no início de 2012. A empresa de mapeamento Bottin processou o Google em Paris por explorar sua posição dominante de mercado. O tribunal ordenou que o Google pagasse 500 mil euros (cerca de R$ 1,3 bilhão) em danos por ter “explorado abusivamente” seu poder de mercado. O gigante de internet apelou do veredicto. Enquanto isso, uma ferramenta de busca francesa está fazendo alegações semelhantes e processou a empresa em quase 300 milhões de euros (cerca de R$ 790) no Tribunal Comercial de Paris.

A diretoria do conglomerado de mídia alemão ProSiebenSat.1 Media AG, com sede em Munique, também não está contente com a conduta de negócios do Google. Por exemplo, quando Thomas Port, o diretor administrativo da empresa de marketing do conglomerado, digitou o nome do programa de futebol do canal Sat.1 em uma busca de vídeo do Google, o conteúdo do YouTube apareceu à frente dos serviços de vídeo da empresa.

A empresa alemã não sabe ao certo por que isso aconteceu, especialmente considerando que as reproduções de suas transmissões no YouTube são legalmente duvidosas. A emissora usa um sistema que o Google oferece para filtrar conteúdo legalmente protegido. “O Google não revela por que um resultado de busca deve ser melhor do que outros”, diz Port.

Seu chefe, Thomas Ebeling, presidente-executivo do grupo de mídia, expressou sua opinião de modo um pouco mais claro recentemente. “Quase ninguém sabe por que um resultado de busca aparece entre as primeiras dez posições na lista de resultados de busca. Mas todos nós sabemos que não mais aparecerá no topo, caso se meta com o Google”, disse em uma conferência de mídia em setembro.


A direção da ProSiebenSat.1 acredita ter motivos para ceticismo. Quando o Google ofereceu ao grupo de mídia a chance de exibir seu conteúdo no YouTube e a ProSiebenSat.1 recusou, algo misterioso aconteceu: seu site de vídeo, MyVideo, de repente despencou na lista de resultados de busca do Google. Em uma semana, dizem os executivos da empresa, o número de visitas ao MyVideo caiu 80%. Foi coincidência ou punição?

Quando perguntado sobre o motivo, o Google ofereceu uma resposta geral, dizendo que uma queda no ranking de uma empresa costuma ser causada por uma “mudança significativa no algoritmo de busca ou uma mudança na estrutura técnica de um site de Internet”. Os diretores da empresa de Munique insistem que essencialmente nada mudou em seu site de vídeos.

Prejudicial às empresas
O Google também parece dar preferência aos seus parceiros de negócios, às vezes em detrimento do consumidor. Há apenas poucas semanas, a ferramenta de busca anunciou um joint venture com a Deutsche Bahn. Logo depois, a associação ferroviária privada Mofair começou a se queixar que o “Google e a Deutsche Bahn estão enganando e prejudicando os usuários de trens”.

Os usuários alemães da ferramenta de busca agora podem ter as conexões ferroviárias exibidas nos serviços de mapas do Google, mas apenas as conexões fornecidas pela empresa ferroviária nacional alemã são exibidas. Os concorrentes foram deixados de fora, mesmo se suas conexões forem mais baratas ou mais rápidas.

 
 
Fonte: Uol

 
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