Página Inicial



twitter

Facebook

  Notícia
|

 

SAUDITAS RECORREM AO TWITTER PARA FAZER CRÍTICAS À FAMÍLIA REAL

23/10/2012


A Arábia Saudita não viveu sua primavera árabe. Mas passou por uma espécie de revolução. Críticas abertas à família real do país, algo que anteriormente não acontecia, se tornaram comuns, nos últimos meses. Juízes e advogados importantes vêm se pronunciando em público sobre a séria corrupção no governo e a negligência social. As mulheres atacam os líderes religiosos que limitam suas liberdades. Até o rei sofreu ataques.

Toda essa dissensão acontece no mesmo fórum: o Twitter.

Ao contrário de outras mídias, o Twitter permite que os sauditas cruzem fronteiras sociais e tratem de assuntos delicados coletivamente, e em tempo real, por meio de temas como "corrupção saudita" ou "prisioneiros políticos", conhecidos como "hashtags", no jargão do Twitter.

Com tanta gente escrevendo, e em geral com seus nomes reais, as autoridades parecem ter desistido de tentar reprimir as manifestações. Há 2,9 milhões de usuários do Twitter no reino, de acordo com um recente estudo, e ele representa a área de maior crescimento mundial para o serviço de microblogs.

"O Twitter para nós é como um Parlamento, mas não a espécie de Parlamento que existe nessa região", disse Faisal Abdullah, 31, advogado. "É um verdadeiro Parlamento, onde pessoas de todas as posturas políticas se reúnem para debater abertamente."

Determinar se o debate resultará em mudança não é possível por enquanto. Alguns céticos veem a inesperada tolerância do governo como truque deliberado para permitir que as pessoas extravasem -mais ou menos o mesmo que as autoridades fizeram ao gastar bilhões de dólares em programas sociais no ano passado, depois dos levantes em outros países árabes: qualquer coisa para evitar uma rebelião real.

Em um país onde entretenimento público e vida de rua mal existem, quanto mais manifestações contra o governo, e poucas pessoas mantêm relacionamentos sociais fora de suas famílias, a mídia social atende a uma gritante necessidade.

Mas ainda assim, a súbita suspensão do tabu contra as críticas públicas é notável, por si só. Revelou, entre outras coisas, uma ira considerável contra a família real, que atinge todas as alas do espectro político e leva alguns sauditas a imaginar por quanto mas tempo essa sociedade profundamente conservadora e aparentemente plácida poderá sobreviver sem reforma séria.

"O Twitter revelou uma grande frustração e uma recusa popular à situação atual", disse Salman al Awda um líder religioso importante que passou anos aprisionado na década de 90 por seus ataques ao governo, e agora é visto como moderado. Ele tem mais de 1,6 milhão de seguidores no Twitter. "Há completa separação entre governantes e governados", disse. "Mesmo os dirigentes do aparelho de segurança não sabem o que o povo realmente pensa, e isso é ruim."

As críticas mais flagrantes à família real até o momento provêm de um misterioso personagem conhecido como Mujtahidd ( a palavra significa "estudioso"). Desde o final do ano passado, ele vem postando acusações sensacionais e muito detalhadas sobre transações corruptas de compras de armas, trapaças em obras públicas e negócios escusos envolvendo numerosos membros da família real, entre os quais o rei Abdullah. Ele muitas vezes escreve mensagens diretas no Twitter àqueles à quem acusa de irregularidade.

"É verdade que sua casa em Jedda custou US$ 1 bilhão mas você cobrou US$ 6 bilhões e embolsou o resto?", escreveu no começo do ano ao príncipe Abdul Aziz bin Fahd, um de seus alvos favoritos.

Não há como confirmar nenhuma de suas acusações, mas a família real claramente leva a sério o que ele tem a dizer, postando negativas acaloradas. Mujtahidd já conta com 660 mil seguidores no Twitter.

Diz-se que a família real envidou fortes esforços para descobrir sua identidade, sem sucesso. Boatos afirmam que ele é um membro insatisfeito da família real ou alguém que recebe informações de fontes bem posicionadas. Enquanto isso, as queixas de Mujtahidd parecem ter inspirado muitos outros sauditas.

No feriado do dia da pátria, no mês passado, surgiu um vendaval de críticas. No dia anterior ao feriado, o ministro do Interior, príncipe Ahmed bin Abdul Aziz, divulgou comunicado no qual dizia que "desfrutamos de um estilo de via luxuoso". A intenção dele era de que isso fosse uma mensagem patriótica.

Mas, no Twitter, muitos sauditas dizem ter visto o "desfrutamos" do príncipe como arrogante referência à família real, e não à nação. O ministro, irritado, postou uma defesa no site. Isso atraiu ainda mais acusações ferozes, entre as quais a seguinte: "Lembre-se de que não temos planos de saúde, não temos emprego. O príncipe Salman [bin Abdulaiz al Saud, o príncipe herdeiro] tem bilhões de dólares, e não se esqueça de todas aquelas terras muradas que pertencem à família real".

As emoções que borbulham no Twitter parecem ter encontrado espaço na mídia convencional, onde colunistas e apresentadores de programas de entrevistas se tornaram mais veementes em suas críticas ao governo. Mas é o Twitter que continua a propelir o debate.

As novas vozes não se restringem aos proponentes de reformas liberais ao estilo ocidental. O maior número de seguidores entre as contas de Twitter sauditas cabe aos religiosos. Muhammad al Arifi, um líder religioso conservador, tem 2,7 milhões de seguidores, número muito superior ao obtido pelos defensores dos direitos da mulher ou pelos membros da família real saudita.

Este ano, quando um jovem poeta e colunista saudita chamado Hamza Kashgari escreveu três posts no Twitter nos quais parecia criticar o profeta Maomé, o tom dominante da reação no Twitter local era o de apelos para que fosse detido e processado, apesar dos pedidos de clemência feitos por progressistas ocidentais. Ele foi extraditado de volta à Arábia Saudita depois de fugir para a Malásia, e continua preso, sob acusação de blasfêmia.

Críticas religiosas parecem representar um limite ainda intransponível, para a maioria dos sauditas. Depois da controvérsia do mês passado sobre um vídeo anti-islâmico, um hashtag popular no Twitter do país era "qualquer coisa menos o Profeta". E o governo tampouco permite críticas sem qualquer reação. Funcionários do Ministério do Interior visitam as contas de Twitter sauditas, sempre sob pseudônimos, rebatendo as acusações dos críticos do governo e afirmando lealdade ao sistema.

Também aconteceram alguns esforços desajeitados de controlar as críticas, entre os quais um decreto real promulgado em junho sob o qual os juízes da Arábia Saudita foram proibidos de escrever no Twitter.

O decreto resultou de meses de ferozes ataques verbais dos juízes contra a improbidade administrativa do setor de Justiça. Em setembro, 45 juízes renunciaram em protesto contra a medida. "Está acontecendo uma revolução nos círculos judiciais", disse Abdulaziz al Gasim, conhecido advogado em Riad.

Mas o Twitter continua a oferecer um panorama notável sobre áreas da sociedade saudita que até recentemente eram inacessíveis para observadores externos. A causa dos prisioneiros políticos, por exemplo, categoria que aqui é entendida como composta tanto pelos defensores de uma monarquia constitucional quanto pelos militantes islâmicos que se opõem ao governo por motivos religiosos, desperta grande simpatia entre os usuários sauditas do Twitter.

Há alguns dias, o advogado Abdullah estava sentado em um café na rua Tahlia, em Riad, e abriu o laptop para ler um elenco surpreendentemente diversificado de críticas no Twitter. Uma das contas, "diário da prisão", pertence a um prisioneiro que posta com um celular ao qual ocasionalmente tem acesso clandestino em sua cela. Ele tem 85 mil seguidores. Uma das mensagens: "Se você vir um prisioneiro dormindo, não o acorde. Ele pode estar sonhando com a liberdade".

Um hashtag sobre cinema, que é ilegal na Arábia Saudita, apresentava um debate vivaz entre os progressistas que combatem a proibição e os conservadores que acreditam que suspendê-la corromperia a juventude.

"Isso reforça a cultura dos direitos, aqui", disse Abdullah. "O que faz diferença. Ontem, postei um tweet sobre o sistema judiciário, acusando os juízes de arrogância. O ministro da Justiça me ligou para conversar a respeito. Ou seja, sabemos que eles estão lendo."A Arábia Saudita não viveu sua primavera árabe. Mas passou por uma espécie de revolução. Críticas abertas à família real do país, algo que anteriormente não acontecia, se tornaram comuns, nos últimos meses. Juízes e advogados importantes vêm se pronunciando em público sobre a séria corrupção no governo e a negligência social. As mulheres atacam os líderes religiosos que limitam suas liberdades. Até o rei sofreu ataques.
 
 
 
Fonte: Folha

 
Indique esta notícia Indique esta notícia para um amigo

Início Notícias  | Voltar