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PARA AUTOR, VALE DO SILÍCIO É EXEMPLO DAS IDEIAS DE SCHUMPETER

16/07/2012

Inovação e empreendedorismo. Em tempos de tablets e redes sociais, os conceitos parecem recentes, mas, na primeira metade do século 20, o economista europeu Joseph Schumpeter (1883-1950), autor de "Teoria do Desenvolvimento Econômico", já os usava.

Contemporâneo de Keynes, Schumpeter, que dizia que a inovação impulsionava a economia, acaba de ser biografado pelo professor de história empresarial de Harvard, Thomas McCraw, em "O Profeta da Inovação".

À Folha o autor falou sobre a atualidade das ideias do economista, empreendedorismo e inovação. Confira a entrevista.

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Folha - Como você teve a ideia de escrever o livro?

Thomas McCraw - Eu li muitos dos trabalhos de Schumpeter, antes a ideia de escrever um livro sobre ele nunca me ocorreu. Nestes trabalhos, achei a análise mais útil e esclarecedora do capitalismo que eu já tinha lido.

E, por muitos anos, meus alunos de MBA em Harvard --mais de 150 por ano, de muitos países e todos com experiência de trabalho e idade média de 27 anos-- disseram-me que os materiais de leitura de Schumpeter melhor descreviam como era "lá fora", no mundo real dos negócios.

Além disso, quanto mais eu aprendia sobre a vida pessoal extremamente dramática dele, mais me convencia de que suas experiências --ele viveu no que são hoje sete países diferentes-- formou sua análise de capitalismo e socialismo.

Que princípios de Schumpeter ainda ecoam?

A importância da inovação para mover qualquer economia para frente, independentemente das questões monetárias, como o que vem acontecendo na Espanha, em Portugal ou na Grécia.

Não acho que esses são assuntos de Schumpeter, são mais de Keynes. Mas mesmo Keynes não antecipou o que está acontecendo agora, mesmo ele não lidou com dívidas gigantes.

Por que Schumpeter afirmava que a economia era impulsionada pela inovação?

A visão dele é que inovação vinha em ondas e que uma coisa puxava outra e outra.

Por exemplo, as telecomunicações, todos os produtos como celulares, iPhones, iPads e internet são coisas que ele previu, que aconteceram e que ele disse que sempre aconteceriam, pois isso [inovar] é o que o ser humano gosta de fazer. Pelo menos alguns deles.

Outros são mais relutantes e têm medo das mudanças, mas os empreendedores não, eles estão à procura de mudanças. É como em uma Copa do Mundo, em que as equipes tentam derrotar umas às outras: essa é a visão dele da competição de mercado.

O que é empreendedorismo para Schumpeter?

O empreendedorismo flui de alguns sentimentos humanos básicos: ter sucesso não apenas por dinheiro, mas também pelo sucesso em si --o senso de aventura, de vencer, de realizar um potencial e de fazer a mundo um lugar melhor.

Schumpeter pensou empresários não apenas como homens de negócios mas também como tipos de personalidades distintas que tiveram determinado tipo de perfil psicológico, dominado por seu alto grau de criatividade.

Eles reconhecem que não podem descansar sobre os sucessos passados e que devem ser continuamente criativos ou vão ser ultrapassados por concorrentes que trabalham mais e são mais inovadores.

Schumpeter acreditava que quase todas as empresas acabariam por não inovar continuamente. Os fundadores do negócio ficariam mais velhos, enquanto os inovadores mais jovens começariam novas companhias e deslocariam empresas mais antigas.

Você pode ver isso na juventude notável dos inovadores no Vale do Silício que começou o que agora são grandes e famosas companhias quando eram muito jovens: pessoas como Jeff Bezos, da Amazon, Sergey Brin e Larry Page, do Google, e Mark Zuckerberg, do Facebook.

Como incentivar a inovação?

No caso do Vale do Silício, de Detroit, de São Paulo SP e em outros centros de inovação industrial, a palavra-chave é clusters [aglomerados com pessoas que estão interessadas em determinado assunto].

E não há só o Vale do Silício, tem Guandong, na China e tem o MIT, em Boston, por exemplo.

O que significa o conceito de "destruição criativa"?

Schumpeter o usou como uma metáfora para descrever a natureza subjacente do capitalismo: o deslocamento contínuo de produtos velhos e velhas formas de organização por novas.

Assim, no século 19, tecidos de algodão substituíram, em grande parte, seda, linho, lã e tecido porque eram mais baratos e podiam ser lavados sem encolher.

Nos negócios, a destruição criativa tem sido similar. Parcerias substituíram indivíduos e foram substituídas por corporações, por causa de várias vantagens.

A ideia de Schumpeter de "destruição criativa" expressa as mudanças dinâmicas que definem o capitalismo. Como escreveu "o capitalismo estabilizado é uma contradição em termos".

Mudança contínua --"destruição criativa"-- é a característica definidora do capitalismo e a única coisa que o distingue de todos os outros sistemas econômicos.

O que Schumpeter pensava de uma economia mista?

Até a década de 1930, a maioria dos economistas acreditava que o sistema de um país tinha de ser capitalista ou socialista. Na Grande Depressão, no entanto, e ainda mais durante e após a Segunda Guerra Mundial, as economias mistas começaram a emergir como uma maneira de sair da depressão e, em seguida, como uma forma de aproveitar métodos capitalistas para produzir bens militares para lutar a guerra.

Por volta de 1945, a maioria das nações industriais (mas não todas, a União Soviética era a maior exceção, como Schumpeter enfatizou) já tinham começado a se mover em direção a economias mistas sem ninguém tivesse pretendido. Schumpeter viu o que estava acontecendo de forma muito clara, mas nem ele nem a maioria dos analistas entendia como as economias mistas funcionariam a longo prazo.

Este ainda é um problema muito grande hoje em dia --como equilibrar o dinamismo de um sistema econômico capitalista com a equidade e justiça que são necessárias para o bem-estar de uma nação e seus cidadãos.

Assim, mesmo que a economia mista tenha provado ser a melhor solução de longo prazo para organizar o sistema econômico de uma nação, a natureza precisa da mistura tem de ser constantemente ajustada.

Você pode ver esta questão mais claramente nos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), todos eles estão tentando resolver os problemas de gerir economias mistas.
 
 
 
 
Fonte: Folha

 
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