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INTERPRETAR UM PALHAÇO MALVADO É PREJUDICIAL PARA A SAÚDE MENTAL DOS ATORES?

05/09/2017

 
 

Com seus trajes fantasiosos e personas cômicas, palhaços parecem o auge da alegria. Mas essas imagens de diversão também podem provocar uma resposta de medo e até mesmo ter inspirado a sua própria fobia. Embora não seja oficialmente reconhecida pela categorização DSM-5 de doenças da Associação Psiquiátrica Americana, a coulrofobia, o medo de palhaços, é uma das fobias mais comumente conhecidas na percepção pública. É fácil entender por que palhaços são algumas vezes vistos como ícones de medo. Sorrisos congelados, cabelos estranhos e maquiagem pesada podem ser a causa de pesadelos.

A cultura popular ajudou a transformar o palhaço em um ícone do terror. O livro de 1986 de Stephen King, It, e o filme baseado nele acompanham sete amigos de infância e como eles são aterrorizados pelo palhaço malvado Pennywise, que ataca os seus medos e inseguranças mais profundas. O palhaço malvado já tinha sido mostrado nas páginas da ficção no final de 1970, quando o serial killer da vida real John Wayne Gacy foi apelidado de “palhaço assassino” depois que descobriram que ele se vestia como “Pogo”, apresentando-se em festas de aniversário de crianças. Em 2016, uma mania do palhaço malvado pareceu se espalhar por todo o mundo, com relatos de pessoas encontrando palhaços ameaçadores.

Benjamin Radford, autor de Bad Clown, afirmou que o palhaço malvado não é um fenômeno novo: “Há uma noção incorreta de que palhaços foram um dia sempre felizes e alegres e que o palhaço malvado é uma novidade. Na verdade, palhaços sempre foram personagens bastante ambíguos. Às vezes, eles são bons, às vezes, eles são maus. Às vezes, eles são figuras malandras… Às vezes, eles estão fazendo as pessoas rir, às vezes, eles estão assustando todo mundo.” Rami Nader, psicólogo e diretor da North Shore Stress and Anxiety Clinic em Vancouver, disse à NBC que talvez a raiz da coulrofobia venha da identidade “embaçada” do palhaço: “Você não pode realmente dizer quem [os palhaços] são. Você não pode realmente ver o seu rosto. Você realmente não sabe o que isso tudo significa por trás da máscara”. Então, o que significa quando um ator assume o papel de um palhaço malvado no cinema, onde o personagem do palhaço malvado está mais popular do que nunca? Nesta semana no Giz Asks, conversamos com vários especialistas — incluindo psicólogos experientes, sobre atuação, e vários atores que interpretaram palhaços assassinos — o que significa se transformar no pior pesadelo de nariz vermelho de um público.

Sid Haig

Ator, Capitão Spaulding no filme de Rob Zombie A Casa dos 1000 Corpos e Rejeitados pelo diabo

Qual é a parte mais difícil de retratar um palhaço conturbado?

Deixá-lo de lado ao final do dia. Eu sei que soa um pouco estranho. Eu trabalho organicamente. Dentro de cada pessoa, existe cada tipo de personalidade. Há um capitão Spaulding em você. O que eu tive que fazer foi entrar e achar o Capitão Spaulding em mim e trazê-lo para fora. Eu tenho que deixá-lo de lado ao final do dia, ou então coisas ruins podem acontecer. Esse foi o trabalho mais difícil na criação do personagem, encontrar esse lugar em mim que eu podia acessar.

Não acho que tenha muita preparação. Eu tinha que encontrar a coisa dentro de mim que me faria retaliar, machucar as pessoas, ser um sociopata. Eu usei isso para buscar em mim e encontrá-lo. Mesmo o maior pacifista poderia encontrar um motivo para pegar uma arma e matar alguém. Há alguma ação que teria que ocorrer para fazer ele fazer isso, mesmo que ele possa ser a pessoa mais pacífica do mundo, há sempre algo que vai desencadear esse tipo de comportamento. Então, é isso que eu tinha que fazer.

Como você sente que o papel afetou o seu estado geral de espírito ou de saúde mental?

Eu estava ok. Eu não fiz nada sociopata. Estávamos todos lá juntos o tempo todo, então estávamos todos descomprimindo depois que o filme [Casa dos 1000 Corpos] foi filmado. Foi muito divertido. Tivemos a chance de fazer todos os tipos de coisas loucas sem realmente machucar ninguém.

Foi catártico para você?

Sim, de certa forma. Você tem a chance de liberar essa loucura — e agora você está no controle dela, e não ela que está no seu controle.

Por que as pessoas têm medo de palhaços?

Eu gostaria de dizer que a partir de minha experiência como um hipnoterapeuta, eu fui capaz de explicar às pessoas porque é que exista uma fobia de palhaços. A mãe e o pai acham que vai ser uma grande coisa levar o pequeno Billy para o circo, quando ele tem oito anos de idade ou mais. Eles levam-no lá, e ele está tendo um grande momento — até que alguém aparece, e é um palhaço. Eles são tão esquisitos, eles não se parecem com a mamãe e o papai, a tia Mary, nem ninguém. Eles não falam. Isso é estranho. Eles usam umas roupas malucas, e isso é um pouco bizarro. E, em seu ato, alguém se machuca, seja de água no rosto, escorregando numa casca de banana, ou o que quer que seja. E isso é assustador para uma criança. Em seguida, eles vão para a sua consciência primordial, que é onde fica o seu mecanismo de lutar/fugir, e eles fogem. Como um adulto, cada vez que vê um palhaço, o mecanismo de fuga é ativado. Essas memórias anteriores de sua mente subconsciente ficam lá até que você trabalhe com elas na terapia e assim por diante.

Você aprecia filmes de terror?

Eu gosto de um bom terror. Filmes de terror que mostram uma grande quantidade de sangue apenas pelo sangue são meio idiotas. Mas eu fiz um filme do qual eu estava muito orgulhoso, chamado Spider Baby. Esse foi o último papel de protagonista de Lon Chaney Jr., e isso foi realmente especial. E foi provavelmente o primeiro filme de terror que feito sem uma gota de sangue. Foi assustador. Você nunca sabia o que ia acontecer. Estava sempre à beira de algo terrível acontecer. Isso é, para mim, um bom roteiro de terror.

Você acha que as pessoas que apreciam terror e filmes pesados são mais adaptáveis às coisas na vida, por não terem medo de enfrentar o lado escuro e andar sobre ele às vezes?

Eles não têm um problema com isso, porque os verdadeiros fãs de terror são as crianças que eram diferentes. Basicamente, os párias. Nós só pensamos um pouco diferente. Eu gosto disso. Na verdade, as pessoas que gostam de terror são aquelas que, quando estavam na escola, tiveram um momento mais difícil ou o que quer que seja. Não há melhores fãs em qualquer outro gênero do que os fãs de filmes de terror. Eles são absolutamente incríveis e dedicados ao que você está fazendo.

Naomi Hynd, Ph.D.

Psicóloga especializada em Neuropsicologia do HCPC, registrada na British Association for Performing Arts Medicine, Spotlight e atriz registrada do Equity

Responder a esta pergunta depende de uma série de fatores.

A) Treinamento de atuação e técnica: algumas escolas de teatro defendem métodos e técnicas de formação em que os atores são incentivados a se identificarem e se tornar o personagem. A profundidade com que o ator faz essas coisas provavelmente terá um impacto sobre se o ator é afetado psicologicamente, interpretando o papel. Quando Heath Ledger atuou em O Cavaleiro das Trevas, relatórios alegaram que ele foi consumido pelo personagem. A super-identificação com papéis pode potencialmente levar a problemas de saúde mental. Papéis que são emocionalmente exigentes podem ter impacto sobre o ator e seus relacionamentos. Por exemplo, Angelina Jolie supostamente discutiu as dificuldades ao filmar À Beira Mar, que potencialmente afetou seu casamento.

B) Deroling [sair do papel]: Deroling não é ensinado ativamente em escolas de teatro, mas é uma parte significativa da formação para dramaterapeutas. A ideia é que certas técnicas ajudam o ator (ou cliente/paciente) a identificar as diferenças entre eles e seus personagens/papéis e, portanto, ajudam a separar o ator da pessoa que eles estão interpretando. Quanto mais o ator leva seu trabalho para casa, mais provável é que ele seja afetado por ele. Da mesma forma, à medida em que o ator tem interesses externos que lhe permitem relaxar e ser ele mesmo, isso provavelmente vai ajudar a restaurar a flexibilidade psicológica e o bem-estar.

C) O pano de fundo do ator: será que o ator tem um histórico de problemas de saúde mental ou mau humor? O modelo de vulnerabilidade a estresse poderia sugerir que os atores que não têm estratégias de enfrentamento adequadas ou têm eventos estressantes que coincidem com interpretar esse tipo de papel podem ser mais afetados psicologicamente. Se o ator teve experiências negativas com palhaços quando eram mais jovens, interpretar um papel desse tipo poderia trazer à tona sentimentos e experiências difíceis, tornando o deroling mais importante.

D) Percepções: o quão prontamente os outros atores são afetados pelo palhaço quando o ator está no papel. Quando o filme é lançado, como outros respondem? Por exemplo, quando Rebecca de Mornay estrelou A mão que balança o berço, a percepção pública dela como pessoa mudou. As pessoas acreditavam que ela era a personagem e evitavam manter seus filhos perto dela. Como o ator percebe o personagem também é significativo. Será que o ator sente que a reprodução de um personagem do mal de alguma forma os deixa parecidos psicologicamente?

E) Catarse: Interpretar esse papel poderia ser útil psicologicamente. Alguns atores falam sobre como interpretar certos papéis lhes permite expressar emoções ou sentimentos (como raiva ou maus pensamentos) indesejados, mas eles conseguem fazer isso em um ambiente controlado, através do personagem. Então, ao invés de ser prejudicial, fazer um papel desse tipo, se lidado de forma adequada pelo ator, poderia ser divertido e útil emocionalmente.
 
 
 
Fonte: Gizmodo
 
 

 
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