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U-BOATS, ESPIÕES E MAGIA BRANCA: A INVENÇÃO DA CRIPTOGRAFIA SEM FIO

26/01/2015

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A estação de telegrafia sem fio em Sayville, Nova York, era uma das mais poderosas do mundo. Construída em 1912 pela companhia alemã Telefunken, ela funcionava como um ponto de retransmissão transatlântico para as mensagens diplomáticas e comunicações comerciais. E era um farol para o mar de entusiastas amadores da tecnologia sem fio de todos os Estados Unidos, pois eles podiam ajustar seus aparelhos caseiros e receber as notícias noturnas da estação. Tudo isso mudou quando um desses amadores descobriu o real propósito da estação.

A Marinha tomou a estação em 1915, sob suspeita de retransmitir ordens secretas do Império Alemão para U-Boats (submarinos alemães) no Oceano Atlântico, e um projeto de lei foi introduzido para tirar do ar todas as atividades de tecnologia sem fio realizadas por amadores. Os trechos inseridos na história que contaremos a seguir são excertos da série de romances The Scientific Adventures of Baron Münchausen, de Hugo Gernsback. A série era publicada na revista Electrical Experimenter quando foram descobertas as notícias sobre o escândalo da criptografia sem fio.


A estática sempre se tornava um problema com a chegada do calor do verão.

Em um terreno de cem acres localizado ao longo da costa de Long Island e “jogada em um campo infestado de mosquitos”, em maio de 1915 a instalação sem fio de Sayville começou a sofrer a interferência sazonal que vinha junto com os dias mais longos e o tempo mais quente. Àquele ponto, um pouco mais velha que o próprio século XX, a telegrafia sem fio (percursora do rádio) não era uma mídia totalmente confiável. Os engenhoqueiros e esquisitões da primitiva comunidade da tecnologia sem fio logo começaram a debater a causa exata dessa estática sazonal. Alguns diziam que as ondas de rádio sofriam mais interferência conforme se propagavam através de um ar mais denso e mais úmido (nessa época, ainda se falava na existência de um éter luminífero). Outros especulavam que, como as mensagens ficavam mais claras à noite, o calor do sol de verão afetava a capacidade de transmissão das antenas da estação.

Ao final do verão, os operadores da Sayville anunciaram que a interferência das chamadas tempestades equinociais estava forçando-os a restringir as mensagens apenas a comunicações oficiais do governo. Alguns comentaristas brincaram que os aficcionados pela tecnologia sem fio estavam misturando causa e efeito: “eles disseram que os efeitos elétricos [da estação] absorveram toda a umidade e deixaram Sayville seca que nem uma batata Saratoga”, referindo-se à batata chip inventada nos anos 1850 em Saratoga Springs, Nova York. Mas talvez a própria estação estivesse alterando as condições atmosféricas de seus arredores.


Quando alguém contempla as maravilhas do som esculpido em um gravador grafofônico, e percebe que do frio vórtice de fios pode desabrochar a melodia cadenciada e dourada da voz mais bonita que o mundo já ouviu, então vem a nós a convicção de que estamos vivendo os dias da magia branca.


Ao custo de um dólar por palavra, tanto civis quanto oficiais do governo podiam enviar mensagens de Sayville para sua estação-irmã em Nauen, na Alemanha. Além de comunicações comerciais e diplomáticas, Sayville transmitia notícias todos os dias às nove da noite, que amadores de todo o país sintonizavam em seus rádios de galena feitos à mão. Receber transmissões da estação de Sayville era o padrão de excelência tanto para os rádios quanto para seus donos (que se referiam a eles mesmos como muckers), e fabricantes de eletrônicos costumavam prometer, nas propagandas de seus produtos, uma recepção fácil das transmissões da Sayville. A estática que vinha com o clima do verão não era nenhuma novidade para esses profissionais e amadores da tecnologia sem fio. Alterações sazonais eram simplesmente parte do ritmo natural de uma nova mídia.

Rádio de galena alojado em mogno, projetado por Harry Shoemaker em 1907. History San José, Perham Collection.

Rádio de galena alojado em mogno, projetado por Harry Shoemaker em 1907. History San José, Perham Collection.

Mas a Telefunken, companhia alemã dona da estação, parecia completamente determinada a não permitir que qualquer distúrbio atmosférico ou climático interferisse nas transmissões das mensagens entre Sayville e Nauen naquele verão. Em junho, para a surpresa da comunidade da tecnologia sem fio, a estação de Sayville podia ser ouvida claramente a distâncias muito maiores. Observadores locais reportaram que o sistema de antenas no topo da estação ganharam torres de mais de 150 metros de altura. Essas novas antenas trouxeram um aumento de 35 a 100 kWh no poder de transmissão, efetivamente triplicando as habilidades da estação “para garantir comunicação absoluta, sob todas as condições e através da pesada estática obtida durante o verão, em particular”. A Electrical Experimenter reportou que a Telefunken importou o equipamento de Roterdã, cidade portuária holandesa lutando para se manter neutra entre a Alemanha, a leste, e a Bélgica ocupada, a oeste.


A eclosão da grande guerra de 1914 me encontrou no meio do estudo de muitas novas invenções que eu estava tentando aperfeiçoar. Mas eu dei boas-vindas à guerra, contudo, com o coração agradecido. Ali estava a chance que eu há muito esperava de acertar as contas com a Prússia, contra quem eu nutri um crescente ódio durante os últimos anos. Minha ‘révanche’ estava a meu alcance.

‘Sim, Monsieur le Président’, eu respondi com fervor, ‘foi meu azar ter nascido na Prússia, mas eu garanto que, hoje, na França não há francês mais ardente e patriótico do que eu. Abaixo à Prússia tirana!’


A estação recentemente expandida introduziu algumas inovações revolucionárias projetadas pela Telefunken, incluindo um novo teclado com letras, que produzia uma fita de papel perfurado das mensagens em código Morse transliteradas, prontas para serem introduzidas em um transmissor automático. Era possível escrever em letras alfabéticas, assim como você faria em um teclado QWERTY, e o que saía é uma fita grossa de código Morse, que a máquina era capaz de ler. Agora, as mensagens poderiam ser enviadas a até 150 palavras por minuto, uma velocidade que teria sido impossível para qualquer operador manual de uma única tecla de código Morse.

Já na recepção, “uma forma de amplificador microfônico especialmente sintonizado” permitia que as mensagens ressoassem alto através da estação. Antes, operadores especialmente treinados tinham que ouvir em fones de ouvido, com cuidado, procurando por sinais, frequentemente estáticos, repetidos várias e várias vezes, por uma questão de clareza. O ato humano da transdução foi substituído por um mecanismo mais sensível.

A capa da edição de agosto de 1915 da The Electrical Experimenter, com uma ilustração da estação Sayville. Magazineart.org

A capa da edição de agosto de 1915 da The Electrical Experimenter, com uma ilustração da estação Sayville. Magazineart.org

Mais importante que isso, as novas antenas de mais de 150 metros “[garantiam] uma descarga fluente e consistente de ondas de rádio no ar”, tão poderosa que só precisava ser enviada uma vez. Antes do upgrade da Sayville, distúrbios atmosféricos causariam falhas nos sinais transatlânticos. Para garantir a recepção da mensagem completa, transmissões eram enviadas diversas vezes, para que pudessem ser cruzados e comparados do outro lado. De acordo com Dr. Karl G. Frank, gerente da Sayville, a repetição das mensagens despertava temores de espionagem. “Pessoas suspeitas”, ele reclamou, “estavam prontas para traduzir o processo de repetição em uma série de comunicações com submarinos alemães”. Sua esperança era que tais preocupações fossem amenizadas com transmissões mais poderosas, feitas uma vez só.

Com registros tangíveis em rolos de papel, transmitidos apenas uma vez e tocando alto na estação para todos ouvirem, a estação alemã parecia estar operando de forma mais transparente do que nunca, em uma época em que as relações da Alemanha com os EUA estavam estremecidas. Ainda assim, logo ficaria claro que as operações não estavam claras de forma alguma. A aspiração da Telefunken pela assim chamada “comunicação absoluta” entre Sayville e Nauen na verdade permitia formas então inéditas de fraude criptográfica.


Nós testamos meticulosamente a estação e depois de estarmos seguros de que ela funcionaria por pelo menos trezentos dias, eu abri o circuito do telegrafone e comecei a registrar esta mensagem a você. Ela vai ser a última que você vai receber nos próximos trinta dias, ou mais. Vai nos levar de cinco a dez dias para construir uma estação de transmissão em Marte, você não deve esperar ouvir notícias nossas por 35 ou 40 dias. Você deve, no entanto, ‘ouvir’, começando do trigésimo quinto dia a partir de hoje. Nenhuma mensagem jamais pode se repetir, porque os eletroímãs ‘de limpeza’ acabam com o impulso magnético do fio de aço assim que ele passa pelos ímãs de transmissão. Você também não poderá transmitir uma mensagem para mim, porque não foi criada nenhuma forma de transmitir suas mensagens para nós enquanto estivermos em Marte.


Em sete de julho, aparentemente sem aviso, o governo americano revogou a licença de operação de Sayville. Naquela noite, uma equipe de engenheiros e fuzileiros navais tomou o controle da estação em Tuckerton, Nova Jersey, que transmitia regularmente a Hanover. O New York Times descobriu que a decisão de assumir o controle das estações de transmissão sem fio foi tomada após uma série de conferências entre os membros do gabinete do presidente Woodrow Wilson.

Mas o que os levou a essa decisão? A declaração oficial da Atlantic Communication Company, que operava a estação, falhou em dar respostas, e a especulação correu solta. Em um editorial para a edição de agosto da Electrical Experimenter, Hugo Gernsback argumentou que assumir o controle daquela estação poderosa foi realmente necessário uma vez que não havia como dizer quem recebia suas mensagens ou como eram lidas. Explicando por que, além das estações sem fio, o governo não confiscava também estações de cabo telegráfico transatlântico, ele escreveu:

Uma mensagem via cabo continua no cabo enquanto é despachada. Ela tem apenas um destino, ninguém pode dar uma “bicada” na mensagem sem graves dificuldades. Com o “sem fio” não é bem assim. Suas ondas são propagadas em todas as direções, mil estações, ou mais, se estiverem equipadas de modo apropriado, podem capturar a mensagem de qualquer lugar dentro do raio de recepção da estação emissora.

Gernsback estava certo. Os alemães tinham antecipado a possibilidade de uma guerra com a Inglaterra e, com ela, o risco de que linhas telegráficas fossem cortadas. Sayville era a resposta. Então, quando a Inglaterra cortou mesmo os cabos germânicos em agosto de 1914, a Alemanha manteve suas ligações com o resto do mundo. Graças à tecnologia sem fio de Sayville, o tráfego telegráfico entre os EUA e Alemanha continuou o mesmo de antes, com a diferença que as mensagens agora passavam direto sobre as cabeças dos inimigos da Alemanha.
 
 
 
Fonte: Gizmodo

 
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