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O HÍFEN QUE DESTRUIU UM FOGUETE DA NASA

30/06/2014

Em 22 de julho de 1962, o Mariner I estava em sua plataforma, pronto para fazer história. Depois do investimento de anos de construção, cálculos e financiamento, a NASA tinha grandes esperanças de que seu foguete realizaria com sucesso um voo de reconhecimento até Vênus, o que daria impulso para a corrida espacial americana. Em todos os sentidos, a NASA estava prestes a estabelecer um precedente em viagens espaciais.

Mas assim que o foguete foi lançado, ficou claro que não havia o que comemorar: menos de cinco minutos depois do início de voo, o Mariner I explodiu, dando um prejuízo de US$80 milhões (hoje seriam US$630 milhões). O que causou este desastre? Um simples hífen que foi omitido num código matemático escrito à mão.

Contexto da Corrida Espacial

Quando os Estados Unidos anunciaram seu intento de lançar satélites artificiais, em 1955, a URSS rebateu declarando que iria explorar o espaço “num futuro próximo”. Dois anos depois, em 4 de outubro de 1957, os soviéticos colocaram o Sputnik I nos anais da história espacial. Para não ficar pra trás, os Estados Unidos aprovaram a a Lei Nacional de Aeronáutica e Espaço em 1958, e a NASA começou a operar. Ao longo do próximos anos, o programa faria uma série de lançamentos, incluindo o primeiro sobrevoo da Lua (Pioneer 4, 1959), e o primeiro satélite de monitoramento meteorológico (TIROS I, 1960).

Mas a União Soviética não demorou a responder e, em 1961, o astronauta Yuri Gagarin se tornou o primeiro humano a ir para o espaço e voltar para a Terra em segurança. No mês seguinte, em um esforço para fazer com que os americanos apoiassem a NASA, o presidente John F. Kennedy fez o discurso que ficou conhecido como “Urgent National Needs” (Necessidades Nacionais Urgentes), prometendo que eles não só pousariam na lua até o fim da década, mas também dedicariam mais recursos à NASA em busca do avanço científico. O programa Mariner de 1962 era parte dessa iniciativa.

Com um orçamento de US$554 milhões, o programa se propôs a realizar um conjunto de expedições interplanetárias. A Mariner I, a primeira das dez naves não-tripuladas Mariner, conduziria um voo até Vênus para coletar uma variedade de dados científicos (isso faria dela a primeira nave espacial a voar até outro planeta). Mas a Mariner I estava fadada ao fracasso e mal deixaria a plataforma de lançamento.

O hífen mais caro da história

Em 22 de julho de 1962, o Mariner I foi lançado com grande alarde. Menos de cinco minutos mais tarde, a missão foi abortada, US$80 milhões foram desperdiçados e aquele que seria um voo histórico acabou caindo no chão — tudo por conta de um pequeno erro num código matemático. Em seu site, a NASA mostra o que deu errado nos momentos seguintes ao lançamento:

O foguete estava funcionando satisfatoriamente até que uma manobra inesperada foi detectada pelos comandos de segurança. Uma aplicação defeituosa nos comandos de orientação tornaram impossível continuar conduzindo a nave e fizeram com que ela se direcionasse para uma área do Atlântico Norte que era rota marítima ou para um local desabitado. [Em seguida, um oficial de segurança ordenou que a missão fosse abortada e a nave, destruída.]

Várias teorias surgiram em torno das razões por trás da falha da nave e grande parte delas se baseava em diversos relatórios que foram produzidos logo depois do acidente (alguns oficiais, outros mera especulação). Mas a explicação mais citada, diretamente do Relatório Pós-Voo da Mariner I, foi que um hífen ou uma barra que não estava nas instruções do código de computador fizeram com que o desastre acontecesse.

ENTENDA: Por que o pouso do homem na Lua nunca poderia ter sido forjado?

Cinco dias depois do lançamento malfadado, uma manchete do New York Times falou do pequeno erro — “Por falta de hífen, o foguete de Vênus foi perdido” — e a reportagem do jornal contou que o erro havia sido o resultado “da omissão de um hífen nos dados matemáticos”. Supostamente, um programador da NASA havia esquecido de colocar o símbolo ao inserir “uma massa de informação codificada” no sistema do computador.

Na mesma semana, Richard B. Morrison, um oficial da NASA, apresentou um relatório sobre a destruição do foguete diante do Congresso americano e ressaltou a importância da pequena omissão:

[O hífen] faz com que a nave ignore todos os dados enviados pelo computador até que o contato com o radar esteja restaurado. Quando aquele hífen foi deixado de fora, informações falsas chegaram aos sistemas de controle da nave. Nesse caso, o computador ordenou que o foguete fosse para a extrema esquerda e apontasse o nariz para baixo; o foguete obedeceu e caiu.

Em seu livro de 1968 The Promise of Space, Arthur C. Clarke lembrou o erro como “o hífen mais caro da história”, uma afirmação que provavelmente é verdade. O Mariner I deu um prejuízo de US$80 milhões (que seriam US$630 milhões hoje) — cerca de 7% dos US$1.2 bilhões que eram o orçamento federal da NASA para 1962. Se existe algum consolo, aconteceu antes de NASA entrar numa fase em que receberia os mais altos subsídios de sua história, o que culminou com a chegada do homem à lua, em 1969:

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Fonte: Centro de Ciência e Exploração Lunar

Infelizmente, o incidente da Mariner I não foi a última vez que a NASA perdeu uma missão por conta de um erro que poderia ter sido evitado. Em 1999, a Mars Climate Orbiter, que custou US$125 milhões (seriam US$172 milhões hoje), voou para fora da rota e se desintegrou depois que os engenheiros espaciais se esqueceram de converter as medidas do sistema imperial para unidades métricas. Enquanto a equipe do Jet Propulsion Laboratory estava usando o sistema métrico (milímetros e metros) em seus cálculos, a Lockheed Martin Astronautics, que construiu a nave, estava usando medições em polegadas, pés e libras.

“Isso foi tão idiota”, disse John Logsdon, membro do conselho consultivo da NASA, ao Los Angeles Times. “Parece que nos últimos anos emergiu um problema sistemático de falta de atenção aos detalhes em toda a comunidade espacial”. Carl Pilcher, ex-diretor do Instituto de Astrobiologia da NASA, encarou o erro com ares de familiaridade, fazendo referência ao que aconteceu à Mariner I. “As pessoas cometem erros o tempo inteiro. Eu acho que o problema foi que nossos sistemas, projetados para reconhecer e corrigir os erros humanos, acabaram falhando conosco”.

A Mariner I vai servir sempre como um lembrete — para todos, desde os humildes editores de blogs até os engenheiros da NASA — da importância universal da revisão. Nesse meio tempo, vamos nos consolar com o fato de que nossos erros de digitação não acabam custando US$80 milhões.



 
 
 
Fonte: Gizmodo

 
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