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O QUE ESTÁ POR TRÁS DA GRATUIDADE DE SERVIÇOS COMO FACEBOOK E GMAIL?

06/05/2014

As pessoas não precisam botar a mão no bolso para acessar Facebook, Gmail, Twitter e outros tantos serviços que são oferecidos gratuitamente pela internet. Mas você já parou pra pensar em quanto vale essa gratuidade?

A contrapartida é o acesso a seus dados, que você fornece aos sites, que depois os vende a anunciantes. Estes, por sua vez, usam as informações para exibir propagandas direcionadas. O resultado é tão preciso que a varejista norte-americana Target, por exemplo, consegue adivinhar quais clientes estão grávidas, e recentemente uma mulher mostrou que teve de trabalhar bastante para esconder a própria gravidez dos anunciantes de internet.

Mas se esses dados que o internauta passa gratuitamente são repassados a terceiros em troca de dinheiro, o acesso continua sendo gratuito?

O Idec (Instituto de Defesa do Consumidor) entende que é preciso tomar cuidado com essa classificação. "Eu entendo que não é gratuito no sentido de que ´não há nada em troca´", comenta a advogada do órgão, Veridiana Alimonti. "Embora não se pague nada financeiramente, existe algo que se dá em troca, nem sempre conscientemente e em geral não tendo controle sobre isso [os dados]."

Professor de Comunicação Digital da Universidade de São Paulo, Luli Radfahrer vê a situação de uma forma mais direta. Para ele, por exemplo, "o Facebook tem 1 bilhão de produtos, que são os dados vendidos no atacado para os anunciantes". Já as empresas pensam o contrário: o acesso é indiscutivelmente gratuito - maiores em seus ramos, Google e Facebook não quiseram se pronunciar oficialmente sobre o assunto.

Por que pensar nisso?

"É importante pensar em quais são as consequências de isso ser ou não considerado gratuito", ressalta Veridiana. "Muitas vezes o consumidor pode ter a impressão de que está recebendo todos esses serviços e não está dando nada em troca."

Luli compara a situação com a de universidades e hospitais públicos, que também não saem de graça, pois são pagos indiretamente. "Se você tiver consciência disso, você passa a ter uma relação mais madura [com o serviço]."

O problema, entretanto, não é vender informações, mas a forma como isso é feito. Geralmente não há como acessar os dados para fazer alterações que você considere importantes porque a coleta é feita de forma automática e massiva. E muita gente só descobre que suas informações estão sendo recolhidas quando topa com algum anúncio preciso demais.

O Marco Civil da Internet, que passa a valer em junho, prevê algumas regras sobre isso: tem de ficar claro que o internauta aceita repassar dados para se tornar usuário de um serviço; ele precisa ser informado sobre o que será feito com os dados e como eles serão armazenados. A empresa por trás do serviço ainda é obrigada a se ater ao que disse que faria com as informações.

O modelo é problemático?

Tanto a advogada do Idec, quanto o professor da USP concordam que não seria saudável acabar com o formato atual, porque ele não é necessariamente ruim, só precisa de ajustes.

"A gente vai acreditar e clicar cada vez menos em banner, então a relação do cliente [com o anunciante] já não é tão boa. Com o anúncio mais direcionado, o anúncio começa a fazer sentido e você pode acabar querendo clicar", afirma Luli. "A relação [do internauta com o anúncio] é de extremo ódio porque a publicidade não é funcional. Ela vende porque é pentelha, mas poderia ser mais produtiva, mais educativa."

Pagar para acessar Facebook ou Gmail e não ter de fornecer dados está fora de cogitação; a própria rede social já cansou de negar que tenha planos desse sentido. Além disso, os usuários dificilmente acreditariam que a coleta seria interrompida.

"Eu não acho que tenha de existir ou só um modelo ou só outro modelo", diz Veridiana. Para ela, basta ter transparência e seguir os parâmetros definidos pela legislação.
 
 
 
Fonte: Olhar Digital

 
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